SEP - Sociedade Espeleológica Potiguar

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SEP - Sociedade Espeleológica Potiguar

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Análise
Animais

Morcegos e Cavernas

O grupo dos morcegos é o segundo maior em riqueza de espécies em todo mundo, principalmente na região neotropical, onde só no Brasil são conhecidas mais de 167 espécies. Essa grande diversidade é explicada pela grande variedade de hábitos alimentares, como:

  • Frugivoria: morcegos que se alimenta de frutos (Artibeus planirostris.);
  • Insetivoria: alimentam-se de insetos (Furipterus horrens);
  • Nectarivoria: alimentam-se de néctar (Glossofaga sp.);
  • Piscivoria: alimentam-se de peixes;
  • Carnivoria: alimentam-se de carne (Chrotopterus auritus);
  • Sanguivoria ou hematófagos: alimentam-se de sangue de outros mamíferos e aves (Desmodus rotundus);
  • Onivoria: alimentam-se de frutos e insetos.

Além disso, são caracterizados por possuírem uma série de tipos de abrigos, dentre estes às cavernas, que se apresentam como os abrigos mais propícios para os morcegos, isso porque são ambientes seguros e estáveis. Os quirópteros exercem um importante papel na manutenção de uma gama de ecossistemas naturais. São capazes de dispersar sementes, controlar pragas de insetos e polinizar plantas. Nas cavernas, atuam como carreadores de matéria orgânica do meio externo para o meio subterrâneo por meio da deposição de guano, mantendo às comunidades cavernícolas.

Equipamentos
Cabureteira

Reatores E Chamas

As origens da iluminação com gás acetileno, nos moldes como ainda hoje é empregado, remontam o ano de 1892, quando o canadense Thomas Willson (1860-1915) criou um modo comercialmente viável de produzir o carboneto de cálcio, misturando cal e coque, que é um produto obtido a partir do carvão betuminoso. A descoberta foi importantíssima à iluminação e indústria, porque o mecanismo permitiu o desenvolvimento de sistemas para liberação controlada de gás acetileno, um subproduto do contato do carboneto de cálcio com a água. Assim, o simples gotejar sobre uma pedra de "carbureto", como é conhecida popularmente a substância, provoca a liberação de gás inflamável, possibilitando o uso de chamas aos mais diversos fins.

A espeleologia não foi a atividade que consagrou o uso das lanternas de carbureto. Na verdade, consta que os fabricantes investiram, no início do séc. XX, inicialmente, na indústria minerária e, após restrições governamentais ensejadas por acidentes com explosões nas minas de carvão, além do declínio econômico da Grande Depressão, as manufaturas voltaram-se ao público doméstico, ferroviário e aos que precisavam de uma fonte de luz barata e confiável, como caçadores e pescadores. Contudo, os espeleológos destacam-se dentre aqueles que mais investiram nesse modo tão arcaico de produzir luz. E isso por diversos motivos. Vale a pena listar que a relação entre o custo e o benefício de uma lanterna de carbureto, comparada a modelos de pilhas químicas, durante décadas revelou vantagens relacionadas à manutenção, durabilidade, confiabilidade e qualidade de luz, que fizeram tantos entusiastas e apaixonados pelo brilho amarelado da chama do acetileno. Mesmo hoje, com o advento de modernos sistemas de LED, há quem não aposente os antigos reatores que, presos ao cinto, levavam o gás a um bico fixado no capacete.

Às novas gerações, parece estranho arrastar-se por condutos claustrofóbicos com um bico de gás incandescente na altura da testa. Mas, quem cavernou no apagar da luz do carbureto, certamente sente saudade de marcar bases topográficas com a fuligem da ponta da chama ou do "cheiro de caverna" que provocava a queima do acetileno.

Análise
Lanternas

Lanternas El Speleo

A lanterna El Speleo surgiu na Croácia, país berço de grandes exploradores e algumas das mais profundas cavernas do mundo. Como a maioria das lanternas premium pensadas à espeleologia, trabalha com 2 LEDs tipo CREE, um deles voltado à iluminação aberta, enquanto o outro funciona como spot. Há dois modelos, sendo que o Neutral White El Speleo 1000 fornece o total de 1000 lúmens (100% difusa + 100% spot), enquanto o mais caro, El Speleo 2200, trabalha com 9 combinações de potência, saindo dos 50 (difuso) e 200 lúmens (spot) até o aumento máximo de 1200 + 1000 lúmens, em modo difuso + spot. Em todos os casos, como as demais laternas, há alternância entre os modos, de forma que uma chave tipo push button faz a seleção eletrônica sequencial das combinações pré-programadas em fábrica. Não há opções de cores ou customização do produto, sendo ofertado como um kit, que inclui carregador e suportes para montagem no capacete.

No geral, trata-se de uma lanterna bem construída, montada em sólida caixa circular de alumínio, com dispersores de calor, havendo reservatório estanque à bateria de células de íon lítio (3,7V). A El Speleo 1000 apresenta nitidamente uma chave seletora mais frágil quanto à proteção contra umidade, problema que foi, aparentemente, solucionado no modelo 2200.

Há três dessas lanternas em teste por membros da Sociedade Espeleológica Potiguar, sendo que, adquiridas em dezembro de 2013, os equipamentos vêm se mostrando robustos e confiáveis. Considerando que foram expostos a cavernas quentes e secas, basicamente, foram extenuados quanto a altas temperaturas e impactos, não se podendo tecer comentários quanto à capacidade de submersão, vez que a maioria das cavernas da Bacia Potiguar é seca.

A El Speleo se destaca, especialmente, pelo preço mais acessível (US$ 240 a 440) do que a Rude Nora ou a Scurion. As vendas são feitas pelo endereço eletrônico www.elspeleo.com), mas ao Brasil o fechamento da compra tem que ser por email, com depósito via Pay Pal, pois o país não está listado nas opções do site. Indiscutivelmente, apesar de representar um investimento maior, se comparadas às laternas feitas em chassi de policarbonato (Petzl e Princeton), esses equipamentos compensam a aquisição, especialmente pela confiabilidade e durabilidade, mesmo em condições extremas.

Relatos
Fósseis

Ossadas em Cavernas

A primeira vez que vi um fóssil em caverna, fui tomado de uma perplexidade difícil de descrever. Estava em um final de conduto, terminando uma topografia, quando o companheiro que se arrastava à frente pôs a mão ao meu lado, indagando se eu tinha noção do que era uma plaquinha chata e hexagonal coberta de argila. "Uma pedrinha aparada", eu disse. Ele, então, me olhando, retrucou: "E quantas pedrinhas podem ter o mesmo formato num lugar como esse?" Realmente, imediatamente, reconheci que o material era de origem orgânica e que, ali, jazia um animal enorme, provavelmente algum tipo de tatuzão.

As cavernas podem ser consideradas como armadilhas naturais, sendo ambiente muito propício ao aprisionamento acidental e morte de animais que, eventualmente, podem ter seus restos preservados pela incrustação, substituição mineral ou recristalização, modificações conhecidas como fossilização, ou seja, processos físicos, químicos e biológicos que ocorrem em ambiente sedimentar e guardam o registro da matéria orgânica ali depositada. No caso narrado, deparamo-nos com partes da carapaça, fragmentos que são chamados de osteodermas, deixados por um grande animal aparentado com os tatus atuais, mas muito maior, vez que poderia atingir os dois metros, e que viveu durante o Pleistoceno, uma Era compreendida entre 2,588 milhões e 11,5 mil anos atrás.

O Rio Grande do Norte, pela enorme profusão de grutas que apresenta, demonstra rico potencial a jazidas fossilíferas em ambientes espeleológicos. Mesmo muito pouco havendo sido feito nessas áreas, os mais importantes achados fósseis do Museu Câmara Cascudo, na Universidade Federal, por exemplo, são decorrentes de escavações em cavernas. Eis, apenas, um dos motivos à preservação, especialmente quando se considera que, muitas vezes, locais ermos e aparentemente desinteressantes à visitação, como passagens apertadas ou abafadas, guardam os mais valiosos registros cavernícolas.

Equipamentos
Lanternas

LED nas Cavernas

Por mais que a iluminação gerada pela chama do gás acetileno tenha reinado absoluta na espeleologia durante mais de meio século, não se pode negar que houve, especialmente durante a segunda metade do séc. XX, várias tentativas de introduzir a eletricidade na atividade. Havia, porém, dois grandes inconvinientes à luz elétrica: a) o foco concentrado; e b) o alto consumo das baterias. Assim, a maioria dos exploradores defendia a carbureteira, como é conhecida a lanterna de carbureto, pela "qualidade" da claridade difusa, capaz de gerar um halo aberto e iluminar de forma constante e homogênea, de modo incomparável às lâmpadas incandescentes.

Porém, com o surgimento do LED (Light Emitting Diode), houve uma verdadeira revolução nesses sistemas. A história remonta o ano de 1963, quando na General Eletric foram desenvolvidas pequenas luzes para indicar o status ligado/desligado. Em 1993, porém, a tecnologia deu um grande salto, com a invenção do LED azul de alto brilho, pelo que o emprego desses dispostivos deixou de ser meramente para fins de sinalização e reverteu, verdadeiramente, para iluminação. A indústria, imediatamente, despertou a esse produto, especialmente porque as lâmpadas incandescentes gastam mais de 80% da energia elétrica produzindo calor, sendo que, só uma pequena parte é dissipada como luz.

Os espeleológos, no início dos anos 2000, começaram a testar o LED como um novo padrão. Contudo, as laternas inicialmente usadas eram apenas equipamentos feitos pela indústria para uso geral outdoor – não em cavernas –, pelo que, no alto desgaste do ambiente cavernícola, costumavam ter curta vida útil. A resposta a esse problema veio veloz e acompanhou o aumento da potência dos LEDs. Assim, vários caverneiros lançaram-se a produzir lanternas artesanais por todo o mundo, blindadas e com características a dispersar o feixe de luz, de forma que foi estabelecido um novo padrão de iluminação no mercado. Do amador fez-se a profissionalização e surgiram, então, equipamentos como a Scurion, El Speleo ou Caveman. Hoje, as modernas lanternas apresentam duplos diodos, possibilitando alternar entre modos abertos ou fechados, o que, associado às baterias de íon lítio (de alta durabilidade), proveu a iluminação de características revolucionárias.

Sites recomendados:
http://www.naturalshine.eu/
http://www.scurion.ch/
http://www.elspeleo.com/
http://www.stenlight.com/

Análise
Mosquetões

Tempo de mosquetões

Em cavernadas, já vimos gente manuseando equipamento em, praticamente, todo tipo de estado de conservação. Desde os mais cuidados, até os completamente negligenciados, que, sequer, tinham qualquer controle sobre as condições de guarda de cordas ou mosquetões. Um dia, numa conversa informal, vendo uma peça de aspecto completamente desgastado, indaguei ao usuário quando ele faria a reposição daquele freio. À minha surpresa, ele disse: "Talvez nunca, porque alumínio não tem validade!"

Uma das questões mais controversas a quem usa equipamentos em trabalhos verticais é saber o momento de substituição das peças. Se seguirmos os manuais, o indicador mais citado – o forte impacto ou a queda livre – parece ser claro. Bateu forte, manda para o lixo! Mas, na maioria das situações, a coisa não se processa tão nítida assim, especialmente porque, conforme mostra a experiência usual, a história de um mosquetão não é feita de grandes choques, mas de pequenas e incontáveis pancadas.

Estudando o tema, lê-se que esses equipamentos, em sua maioria, são feitos de ligas como o duralumínio (Al 7075), que basicamente combina Al, Zn, Mg e Cu. Em todo caso, pelo processo de produção, cria-se alta capacidade de tração e forte sensibilidade a colisões. Deve-se ter em conta, porém, que, ressalvadas situações como: a) gatilhos danificados; b) fortes impactos; ou c) desgastes variados pelo atrito com a corda ou elementos metálicos, muito importa reconhecer que, por um critério temporal e de precaução, a substituição dos equipamentos deve ser feita, em média, pelo uso durante um certo intervalo de tempo, que pode variar, conforme se exija mais ou menos da peça. Assim, considerando-se que o uso normal envolve pequenos choques e situações de desgaste imperceptíveis ao olho humano, pelo cuidado à vida, a melhor alternativa é, de tempos em tempos, ser feita uma substituição gradual dos equipamentos baseada em horas de uso. Uma peça que, por exemplo, foi utilizada em durante 40-50 dias no ano, vai aculumar cerca de 500 horas/uso. Desgastes acima de 3.000 horas já se mostram bem consideráveis.

Sei que em tempos de dólar estratosférico, substituições contínuas de itens importados parecem pouco viáveis, especialmente quando se toma que o conjunto de equipamentos de um explorador, no Brasil, adquire o status de verdadeiro "patrimônio para herança". Mas pensando no valor da vida e de que, no final, essa parafernalha está lá, justamente, para nos proteger, o bom senso deve, ao final, imperar.

Análise
Ancoragens

Parabolts na Rocha

Uma das técnicas mais empregadas para fixar pontos de ancoragens a montagens de cabos para progressão vertical é o uso de parabolts, que nada mais são do que parafusos com uma luva de expansão presa ao corpo metálico, de modo que na fixação do elemento, o atrito das partes móveis com a rocha encaixante provoca um alargamento da extremidade, travando a peça no orifício. A fixação mecânica pode ser auxiliada, ainda, pelo emprego de colas com as de tipo epóxi, o que promove o travamento da peça tanto por processos físicos, como químicos. Neles são fixadas as chapeletas, onde se prende o mosquetão e, por fim, a corda.

A colocação de parabolts é um processo relativamente simples, pois a regra mais elementar é produzir um furo na rocha com diâmetro suficientemente pensado para introduzir o corpo com algum atrito, de modo a permitir a dilatação da bucha na tentativa de tração inversa. Deve-se ter mente, porém, que excesso de força de expanção pode causar uma ruptura em cone da área onde está o conjunto do parafuso, pelo que se deve imprimir uma quantidade de tração somente necessária a prender o equipamento na rocha, sem danificar o ponto de encaixe. Algumas regras são bem válidas: a) fazer o furo perpendicular à superfície; b) não colocar a chapeleta na área da rosca do parabolt; e c) procurar áreas sólidas e livres de cizalhamentos aparentes.

Em ambiente de caverna, é comum emprego de parabolts ou outros tipos de ancoragens artificiais pela dificuldade, muitas vezes, de achar bons pontos para fixar o cabo. Há, ainda, várias situações, como fracionamentos de cordas, em que se faz necessário produzir, de modo artificial, um local para prender mosquetões e deslocar a via vertical, especialmente para evitar o atrito entre a corda e a rocha, garantindo-se a melhor segurança.

Equipamentos
A Bússola

Desenhista de Mundos

Para muito além de uma bússola integrada a um clinômetro, a Suunto Tandem ofereceu à espeleologia um conceito, que possibilitou reproduzir mundos subterrâneos em mapas espelotopográficos com uma precisão e versatilidade que consagraram esse equipamento em todo o planeta. Partindo de uma ideia muito simples, houve a junção dos dois principais instrumentos utilizados na espeleotopografia em uma pequena caixa de alumínio, capaz de fornecer leituras de boa precisão e, ao mesmo tempo, proteção contra poeira, água e lama, as três constantes daquilo que se vê em qualquer caverna.

A quem nunca trabalhou em ambientes cavernícolas, ou àqueles acostumados a volumosos e delicados leitores, talvez seja banal um levantamento topográfico realizado de uma forma tão primitiva: apenas bússola e clinômetro! Mas, antes de um juízo tão precipitado, não se esqueçam de que cavernas são lugares de diversidades e adversidades tão amplas que, simplesmente, seria impossível acessar os mais diversos condutos, que as Eras desenvolveram dentro das rochas, carregando grandes tripés, réguas e teodolitos. Horas a fio em arrastos ou nos trabalhos em cordas; momentos infinitos à beira de precipícios ou atolados em guano úmido, ou seja, há uma variedade tão grande de situações, que somente um instrumento versátil, compacto, rápido e de mecanismo o mais simplificado possível poderia fornecer resposta a labirintos escuros aparentemente sem solução topográfica.

A topografia não cria mundos. Apenas os descreve. Equipamentos não podem substituir a sensibilidade de homens, a percepção do que inserir ou omitir em um mapa. Mas os sentidos humanos, quando amparados em um único instrumento, em perfeita sintonia com o momento e a vontade de ir além, dotam um explorador de uma condição única: a capacidade de desenhar o que há onde ninguém jamais esteve.

Equipamentos
A Corda

Capa & Alma

Uma das primeiras lições que se aprende na Espeleologia é sobre a importância da corda à integridade da equipe. Dicas, cuidados e até certa de dose de neura fazem parte da catequese, especialmente porque, com o tempo, todo explorador tende a se encher de uma perigosa autoconfiança e refutar algumas regras que fazem toda diferença. No fundo, no fundo, se todos tivessem a nítida percepção de que em trabalhos verticais a vida se mantém pela qualidade do cabo (que deve ser novo, limpo, bem guardado e ficar longe de arestas), certamente, 90% dos acidentes simplesmente deixariam de existir, porque, ao contrário do mostrou Stalonne naquele filme da Tela Quente, na real, uma corda moderna não se romperá apenas com o peso de um homem!

Naturalmente, os desafios dos primeiros exploradores, que testaram uma variedade enorme de materiais oriundos de fibras naturais como algodão, linho ou sisal, ou passaram enorme risco para evoluir os aprendizados sobre técnicas, não são os mesmos aos quais nos submetemos hoje. O cabo utilizado no presente é construído pela conjugação de duas seções distintas: a primeira é chamada de "capa", sendo formada pela cobertura trançada exterior; e segunda é conhecida como a "alma", o miolo responsável pela resistência às maiores cargas. A capa protege a alma de elementos como abrasão ou raios solares, enquanto essa última sustenta trações de mais de 2.000kg. Percebe-se, assim, que se trata de um equipamento técnico que passa por rigorosos testes e controles de fabricação. Na Espeleologia, a especificação manda que seja utilizada a corda estática, ou seja, aquela que apresenta uma deformação inferior a 2% até próximo de sua carga de ruptura, porque se um cabo estica demais numa descida, o corpo do explorador pode sofrer algum choque acidental – por exemplo, com o fundo de um abismo –, como se estivesse, literalmente, em um ioiô.

O mais importante disso tudo é a compreensão de que o respeito às particularidades e ao funcionamento de cada equipamento deve condicionar seu uso, pois em cavernas, entender os limites das coisas é de fundamental importância. Há regras que podem ser dilatadas, outras não. Normalmente a fronteira entre o erro e o acerto é tênue, mas as consequências do mau uso das cordas, quase sempre, são trágicas.

Equipamentos
A Corda

Cordas e Cuidados

Ouvir alguém relatar sobre alguma dificuldade vivida, durante progressão vertical, no Brasil, não é a coisa incomum. Usualmente, os grupos de Espeleologia surgem como reuniões de amigos, sendo que, em muitos casos, a experiência prática precede a teoria. Quando se transporta essa constatação ao mundo das técnicas verticais, como o rapel, percebe-se o motivo de tantos erros humanos por imperícia ou simples descuidos, uma realidade, infelizmente, banal, considerando que não há no país uma escola ou curso de formação em Espeleologia e quase tudo que se absorve, nessa área, finda como produto de capacitações de baixa carga horária ou do esforço individual mesclado ao intercâmbio com outros colegas.

As cordas, porém, não são complacentes com erros. A cobertura exterior do cabo, chamada de capa, é capaz de deter a abrasão em algumas situações, mas em cavernas, onde arestas de pedra cortam como facas, é muito fácil romper uma proteção mal posicionada, ainda mais quando os movimentos na corda são feitos de modo a imprimir tensões desnecessárias ou arrastos (verticais ou horizontais). Tudo isso, associado ao ambiente subterrâneo, que tende a pulverizar os equipamentos com grãos de areia ou outros materiais de origem mineral de granulometria bem fina, mas muito abrasivos, contribui para diminuir, consideravelmente, o tempo útil das fibras. Assim, é imprescindível compreender que cada equipamento tem uma função técnica bem específica. A Espeleologia precisa ser pensada, sempre, como uma sequência de riscos calculados. Lavar a corda com água limpa e corrente, livre de substâncias que ataquem os elementos sintéticos – como um sabão neutro –, ajuda a preservar a integridade do material. Igualmente, durante o transporte, é muito importante manter cordas e outros elementos feitos de náilon longe de fluidos ácidos (como os que os contidos em baterias) ou hidrocarbonetos (combustíveis e lubrificantes). Por tudo isso, deve-se inspecionar os equipamentos regularmente e cuidar da guarda em locais limpos, livre de animais e agentes contaminantes. No final, a dica mais valiosa: lembrar sempre que componentes feitos de náilon tendem a ressecar com o tempo, perdendo suas características originais. Assim, nunca se deve deixar uma corda ou fita exposta sem necessidade ao sol ou guardada dentro de um carro quente fechado, que pode atingir, com facilidade, mais de 50ºC.

Equipamentos
A Roupa

Macacão de Espeleo

Mesmo não havendo um único tipo de roupa para se entrar em cavernas, já que, dependendo das condições ambientais de cada gruta, pode-se valer de uma infinidade de materiais ou modelos de cortes diferentes, o macacão, ao longo do tempo, vem se mostrando como uma escolha preferencial dos caverneiros. Sendo composto por uma única peça, apresenta a nítida vantagem de evitar a exposição acidental de regiões sensíveis como abdômen ou lombar, não permitindo que sedimentos ou pequenos animais entrem em contato com a nossa pele. Mangas longas e zíper também contribuem, nessa mesma concepção. Além disso, o baixo custo de fabricação associado à durabilidade e simplicidade também se unem ao conforto, pois uma vestimenta capaz de acomodar todo o corpo ajuda muito (quando tudo parece atrapalhar!).

Os materiais, porém, variam muito. Normalmente, em cavernas quentes e secas, há preferência pelo algodão ou tecidos sintéticos que facilitem a transpiração. Já grutas molhadas, forçam a utilização de fibras semelhantes ao náilon, como a cordura, que podem ser impermeabilizadas com resinas, de modo a evitar que a lama gelada penetre. Assim, o algodão em cavernas com água torna-se pesado e pouco prático, diferentemente dos tecidos que não absorvem umidade; mas o náilon em lugares quentes, impede a boa transpiração, provocando assaduras. Quando o assunto, porém, é durabilidade, as fibras como a cordura são insuperáveis, pois mesmo o brim mais resistente, tende a se lacerar em pontas de pedra cortantes. O certo, porém, é que não existe um tecido superior, ou nada disso. As diferenças entre os ambientes pedem soluções diversas e, cada pessoa, tende a se adaptar melhor a um tipo de material. Há aquelas que defendam até, em lugares frios, o uso de roupas de borracha ou lycras coladas, o que somente ilustra a variedade de opções.

Longe de tudo isso, entretanto, a vestimenta deve ser vista como um equipamento de proteção individual – EPI, pois agrega características que são fundamentais à manutenção da integridade física do explorador. A proteção contra cortes e pelos de plantas ou animais, contra a hiper ou hipotermia, ensolação ou queimaduras provocadas pelo cabo do rapel, são todos exemplos da utilidade de uma simples veste, que se aprende a valorizar nas situações enfrentadas em cavernas.

Equipamentos
O Capacete

Capacete na Caverna

Diferentemente de outras atividades de natureza esportiva, o capacete parece integrar o corpo do caverneiro de forma indissociável. Assim, pode-se imaginar um escalador ou ciclista desprotegido, mas alguém entrar em cavernas sem uma cobertura à cabeça? Jamais! E isso porque, ao contrário do que muita gente pensa, o capacete não serve para evitar "as pedras que caem", mas essencialmente atenua as colisões distraídas em tetos e paredes, os choques quando há escorregões e, sim, finalmente (porém, como um caso bem mais raro), alguma pedrinha que negligentemente alguém rolou de um nível superior. Por essas e outras, capacetes de espeleo são repletos de arranhões e marcas de pancadas. Na verdade, bater a proteção do casco é coisa corriqueira no avanço por condutos e só mostra que o proprietário do equipamento realmente leva a sério o que faz!

Os modelos empregados em Espeleologia, normalmente não foram desenhados para uso exclusivo em ambiente subterrâneo. Com efeito, os exploradores se valem de equipamentos que são usados ao alpinismo ou trabalho técnico em altura, havendo a única exigência por um casco que tenha três pontos de fixação da fita de ajuste com presilha. Esses capacetes agregam características que atendem aos requisitos esperados a bons utensílios para proteção em grutas, tais como: leveza, resistência, desenho anatômico e fixadores para lanternas de LED, fazendo-os, assim, excelentes à Espeleologia. Ademais, é imprescindível procurar modelos certificados pela UIAA/CE, ou no Brasil, o IMETRO. Contudo, além de tudo isso, nunca se deve motivar a compra por preços ou marcas. Procure um capacete que se ajuste bem ao formato de sua cabeça e se faça confortável. Diferenças anatômicas, comuns entre as pessoas, produzem resultados também diferentes e, por vezes, um modelo pode ficar excessivamente folgado ou apertado, o que, em uma sequência de horas debaixo do chão, em situações incômodas, pode gerar grande estresse físico e mental. Lembre-se, a cabeça é uma das partes mais sensíveis do corpo e elementos que causem fadiga são bem comprometedores em situações extremas. Um capacete deve ser pensado como valioso investimento à integridade do corpo, como são bons tênis, algo que vale a pena comprar com calma, especialmente, porque é ele quem vai segurar o tranco na hora em que você mais precisar.

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